Logbook: 3 de Janeiro, Domingo

Com algumas coisas tenho rituais. Não é nada muito maníaco (do tipo TOC), só que eu gosto de fazer algumas coisas de uma certa maneira. Bem específica. De alguma forma, repetir as coisas, do jeito que já deu certo uma vez, me traz algum tipo de segurança.
“Tomar café” é uma delas. Entre aspas, porque tomar café não é só o fato de ir até lá e beber. Não é nem uma coisa que acontece SEMPRE que eu vou lá (e “lá” é um café específico. Que eu faço um caminho específico para chegar, que eu prefiro sentar em um lugar … não vou, nem quero, explicar tudo aqui).
Que seja. Hoje foi um dia especial e eu quero contar ele:
Parte porque me senti muito muito bem, com uma coisa muito simples e acho que ela merece ser dividida.
Parte porque quero prestar uma homenagem (mesmo que a pessoa nunca veja. Faço muitas coisas que as pessoas acabam nunca notando, até porque isso não é necessário para me fazer bem).
(continua)
Estava no balcão esperando o Café como venho fazendo ultimamente, sem os fones, porque eu acho meio chato conversar com os fones. Com o tempo os atendentes do café me reconhecem e sempre acabam falando ‘oi’ ou ‘boa tarde’ (além do tradicional ‘bom café’ que eles devem ser obrigados a falar, mas mesmo assim as vezes vc percebe que eles realmente querem dizer aquilo).
Antes de continuar preciso explicar que eu gosto mais do Café de algumas pessoas específicas. Não me importa se todos fazem da mesma forma, eu prefiro receber meu café de algumas pessoas. Para mim, tem outro gosto. E isso é sobre mim né? Então não preciso justificar mto.
Quando fui receber o Café, a menina que tinha feito (é da lista das que GOSTO) me olhou e disse:
“Esse é o último café que eu vou fazer para você, então espero que seja um bom café”
Isso. Isso é uma tijolada.
Uma tijolada é um daqueles acontecimentos que te tiram do centro. Uma daquelas coisas que são tão intensas que tudo parece menor. Por um instante ou por meses.
Saí com a bandeja. Tentando não pensar muito
Quando sentei do lado de fora eu estava chorando.
Eu sei que isso é bem menininha e eu juro que me sinto escrevendo um diário, com 15 anos. Mas eu decidi que ia contar isso e eu quero contar. Pelo menos ninguém notou. Estava com meus novos óculos, deu pra brincar de Frankenstein.
Tomei o Café como um presente. Feito especialmente para mim. Você sente quando uma coisa foi feita só para você não sente? É diferente. Não importa muito a coisa em si, mas o sentimento que foi colocado naquela coisa.
E esse Café foi um presente. Um presente meio melancólico, de despedida. Talvez ela já tivesse feito vários Cafés sabendo que eles eram para mim. Talvez eu nunca tenha notado. Mas esse presente eu recebi, ela fez questão de dizer.
Eu queria devolver. Eu queria dar um abraço nela na verdade. Mas isso seria muito estranho. Entrar lá, com todo mundo olhando e eu fazer uma “coisa dessas”.
Parte do “Tomar Café” é fazer um tsuru com a comanda do meu ticket (que é torrado lá…) só para passar o tempo. Começou como uma besteira (como a maioria das minhas manias começam) e evoluiu para “parte do ritual”.
Até que um dia eu paguei no dinheiro (ou não me deram minha via) e eu tive que fazer com outro papel (eu disse que era meio específico…) que ficava meio grande. Foi quando tive a idéia (ok, não foi bem assim que eu tive a idéia, mas isso eu não quero explicar) de usar os papéis da minha imensa caixa de dobradura (tem umas 800 folinhas lá dentro). Eu geraria menos lixo e faria tsurus mais bonitos (que recentemente tinham sido notados… o que é estranho).
Estranho que hoje (antes de tudo isso) saí de casa sem pegar a tal da folha. Quando já estava no meio do caminho lembrei. Resolvi voltar e pegar. Eu tinha acabado de começar essa história de ‘usar o papel bonito’ e não queria quebrar a sequência logo de cara.
Então resolvi tomar mais um Café e quando ela fosse me entregar eu entregaria o tsuru de hoje só pra ela. Pq eu fiz pensando nela, de presente. Como o que ela tinha me dado.
Eu entreguei. Foi tão difícil quanto falar com uma menina que eu acho bonita. Mas essa eu tinha que fazer, afinal ela tinha feito a parte dela certo? Ela tinha falado pra mim.
Ela sorriu e gostou.
Estava a pouco tempo lá fora quando ela apareceu e perguntou algo como;
- só por curiosidade, qual seu nome?
- Vitor
- Prazer, Patrícia. Eu gostei muito do presente (não tenho certeza se ela falou ‘presente’), muito obrigado, eu vou guardar com carinho
Eu estava tentando falar as coisas normalmente, mas eu devo ter balançado para os lados de um jeito meio mongolóide.
- Posso te dar um abraço?
Ela acenou que sim.
Foi sincero.
Meu primeiro presente do ano.
Obrigado…. Patrícia (eu sou péssimo com nomes e tive que voltar lá pra perguntar e poder terminar isso)





06/01/2010 at 9:30 AM Permalink
Que triste isso. Pra onde será que a Patrícia vai?
06/01/2010 at 9:39 AM Permalink
Não sei, claro que ja pensei em stalkerar e ver esse tipo de coisa. Mas acho que não faria mto sentido. Só espero que ela estivesse saindo para algo melhor. E que ela tenha saido bem e td mais (sem brigar e td, na verdade ela parecia bem esse domingo, não 100% bem, mas bem.
06/01/2010 at 12:18 PM Permalink
Cacete Vitor/Ganso. O texto foi de uma profundidade que poucas pessoas que conheço conseguiriam transmitir. Não só por expor (até onde você permitiu que os leitores sabessem) seus sentimentos, mas também pela sensibilidade em captar a “tijolada”.
De verdade, me surpreendeu positivamente o texto. Não que essa sua faceta fosse desconhecida, mas pelo simples fato que realmente surpreendeu.
Torcemos pela felicidade da cara Patrícia.
Ps. ok, nesta famigerada ‘web 2.0′ é fácil expor sentimentos e criar personagens de nós mesmo. Mas como eterno saudosista do passado, ainda dou um puta valor aos que se mostram em seu íntimo.
07/01/2010 at 6:04 PM Permalink
Só para constar que eu estou chorando com este texto… De menininha ou nao, achei extremamente profundo e simples, o que o mais dificil de acontecer.
08/01/2010 at 11:08 PM Permalink
Eu já tinha lido, mas cada vez é mais triste/melancólico.
Torceremos pela felicidade da Patrícia (e pela sua tb, Vi, evidentemente)
14/01/2010 at 12:27 AM Permalink
Me emocionei, Vi. De verdade. Obrigada por dividir isso com a gente.
Beijão.
06/02/2010 at 2:19 AM Permalink
Patricia está bem. Parou de trabalhar no Café pra voltar a estudar (ou melhor dizendo, começar a estudar).
É infinitamente grata a Vitor por todos os presentes que deu a ela. Desde os sorrisos sinceros sempre que recebia seu espresso doppio até esta homenagem. Deu à vida dela mais sentido, e isso tem valor inestimável. Não há palavras pra agradecer.